O ‘ficar’ e o outro lado da moeda
Por Sérgio Pereira Alves
A questão do
relacionamento amoroso possui aspectos delicados que, se quisermos lidar com
seriedade, devemos tratá-lo com muita consciência para não cairmos em posições
unilaterais ou preconceituosas. Esta é uma matéria que envolve qualquer idade e
se estender a todos os setores da vida passando por uma postura ética,
psicológica, filosófica, estética e fisiológica.
Uma das grandes
dificuldades de se lidar com o amor é que ele sempre se transforma em um
problema individual, descaracterizando todos os critérios e regras gerais. Não
se pode emitir conceitos generalizados sobre o assunto, sendo esta a razão de
polêmicas e controvérsias. Quando acontece com a gente é sempre diferente.
Damos as desculpas mais contraditórias para explicarmos a nós mesmos, a fim de
ajustar a nova realidade a todos os nossos conceitos, preconceitos e visão de
mundo. E não existe limites para isto. Cada um de nós vai se explicar e tentar
entender todas as discrepâncias de um relacionamento amoroso a fim de
justificar o assumir ou não o compromisso da vida em comum.
A questão do
relacionamento não se limita à idade. Ao longo de minha prática clínica,
pessoas de 20, 40 e 60 anos criam um grande bloco , de uma uniformidade
incrível, em relação aos problemas e condições de uma procura, início e
manutenção de um relacionamento estável e duradouro.
Entre as causas mais
prováveis, independente da idade, que podemos apontar como indicadores do
problemas de uma estabilidade amorosa, as raízes sociais de uma falta de
condições financeiras e a não definição social ou profissional devido à não
conclusão dos estudos, ou de uma instabilidade profissional. De causas mais
psicológicas podemos citar a imaturidade psíquica, o apego infantil à própria
família, a necessidade de liberdade para se deslocar para qualquer lugar, a
capacidade pouco desenvolvida de amar e ser responsável, a uma falta de
experiência em relação à vida e ao mundo lá fora; que é uma selva, a
dificuldades de diálogo, ouvir e se expressar; para compreender e ser
compreendido. Além de todas as ilusões típicas da juventude ou de uma
personalidade despreparada e predominantemente ingênua.
O casamento instituído
acaba se tornando uma solução comum para aliviar esta ambivalência sentida nas
entranhas, numa tentativa de estruturação ou reorganização de valores que
combinem perfeita e simplesmente com nossas atitudes racionais. Tipo ‘agora eu
me caso e vou ser feliz. Vou me tornar maduro, adulto, responsável e seguro’.
Mas esta experiência
não se mostra muito verdadeira para um grande número de pessoas cujas condições
se caracterizam por uma ou algumas das causas descritas acima. E assim, como
resposta começam a surgir novos padrões que antes simplesmente se achavam sob
forte proteção de algum juízo moral. E uma destas formas, cada vez mais difundida
e constante entre as pessoas é o ‘ficar’. Que vem se fazendo presente talvez
como uma marca de modernidade comportamental.
Nós estamos tão
sobrecarregados de dogmas e preconceitos que o nosso pensamento alcança limites
irracionais. Já vi homens chegarem à conclusão de que o certo era manter a
esposa e a amante, pois ele amava as duas. A própria condição psíquica deste
momento cria ilusões que vão impossibilitar o alcance de uma estabilidade, e a
maturidade de julgamento em relação aos interesses e planos de vida. Estes
mudam com tanta freqüência que se torna impossível definir e avaliar o que
realmente se quer. Quantos já não se apaixonaram por alguém para duas semanas
mais tarde não entender como aquilo pôde acontecer.
Esta maturidade de
julgamento em relação aos interesses e planos de vida só se desenvolve através
de tentativas e erros. E as ilusões e desilusões acabam por comprometer este
caminho, pois as pessoas se fixam na condição do ‘ficar’, bloqueando o
processo, correndo o risco de se estabelecerem em um infantilismo. A questão
não é ficar ou não ficar, e sim ficar no ficar. Pessoas se iludem achando ser
esta a solução. Impedindo o desenrolar do processo de alcance de uma maturidade
e conseqüente conquista de um relacionamento estável.
Estas pessoas são ou
serão eternas crianças. Elas simplesmente ‘ficam’ como se tudo na vida fosse
provisório. Uma autora as descrever como homens que tem dificuldades de se
estabelecer, de correr o risco de um desligamento das origens ou laços
familiares. Se relacionam nesta forma descompromissada por medo de perder. São
impacientes, não-relacionados, idealistas. Sempre começando de novo,
aparentemente intocados pela idade, parecendo serem sem malícia, e dados a
largos vôos de imaginação.
Mas como toda condição
humana, isto possui vantagens e desvantagens. Por um lado, a atitude
experimental possibilita conhecer-se sem grandes conseqüências. A partir do
momento que o outro nos espelha nossas contradições e afinidades, quanto mais
pessoas se conhece, mais se estaria aprendendo. Exercitando a visão de mundo,
aprimorando o modo de se expressar, adaptando-se e aprendendo a se defender do
outro, seja ele que for. Desta forma as pessoas estariam acumulando inúmeras
experiências de valor inestimável para a conquista de sua inteireza de ser. Mas
o outro lado da moeda despotencializa esta grande aventura. O caráter de
descompromisso pode facilmente transformar o ‘ficar’ em algo corriqueiro, sem
graça, superficial e sem sentimentos.
Portanto temos o namoro
e o ‘ficar’. O falso aprisionamento e a pretensa liberdade como dois elementos
deste complexo mágico que definem a condição humana nos relacionamentos, e
incompreensivelmente alheios a uma explicação racional e totalmente fora de
nosso controle.