Ciúme
De acordo com a psicóloga Ayala Pines, ciúme é "a reação
complexa a uma ameaça perceptível a uma relação valiosa ou à sua qualidade.
Provoca o temor da perda e envolve sempre três ou mais pessoas, a pessoa que
sente ciúmes - sujeito ativo do ciúme -, a pessoa de quem se sente ciúmes -
sujeito passivo do ciúme - e a terceira ou terceiras pessoas que são o motivo
dos ciúmes - pivô do ciúme.
Segundo a psicóloga clínica Mariagrazia Marini, esse
sentimento apresenta caráter instintivo e natural, sendo também marcado pelo
medo, real ou irreal, de se perder o amor da pessoa amada. O ciúme está
relacionado com a falta de confiança no outro ou em si próprio e, quando é
exagerado, pode tornar-se patológico e transformar-se em uma obsessão.
A explicação
psicológica do ciúme pode ser uma persistência de mecanismos psicológicos
infantis, como o apego aos pais que aparece por volta do primeiro ano de vida
ou como consequência do Complexo de Édipo não resolvido; entre os quatro
e seis anos de idade, a criança se identifica com o progenitor do mesmo sexo e
simultaneamente tem ciúmes dele pela atracção que ele exerce sobre o outro
membro do casal; já na idade adulta, essas frustrações podem reaparecer sob a
forma de uma possessividade em relação ao parceiro, ou mesmo uma paranóia.
Nesse tipo
de paranóia, a pessoa está convencida, sem motivo justo ou evidente, da
infidelidade do parceiro e passa a procurar “evidências” da traição. Nas formas
mais exacerbadas, o ciumento passa a exigir do outro coisas que limitam a
liberdade deste.
Algumas
teorias consideram que os casos mais graves podem ser curados através da psicoterapia
que passa por um reforço da auto-estima e da valorização da auto-imagem. Porém
várias teorias criticam a visão psicanalítica tradicional (exemplo:esquizoanálise).
Outros casos
mais leves podem ser tratados através da ajuda do parceiro, estabelecendo-se um
diálogo franco e aberto de encontro, com a reflexão sobre o que sentem um pelo
outro e sobre tudo o que possa levar a uma melhoria da relação, para que esse
aspecto não se torne limitador e perturbador.
Ciúme é uma
reação complexa porque envolve um largo conjunto de emoções,
pensamentos, reações físicas e comportamentos:
O ciúme, em
princípio, é um sentimento tão natural ao ser humano como o tédio e a raiva.
Nós sempre vivenciamos este sentimento em algum momento da vida, diferem apenas
suas razões e as emoções que sentimos. Como todo sentimento, tem seu lado
positivo e seu lado negativo.
O lado positivo: protege o amor
Nos
relacionamentos onde os sentimentos de ciúme são moderados e ocasionais, ele
lembra ao casal que um não deve considerar o outro como definitivamente
conquistado. Pode encorajar casais a fazer com que se apreciem mutuamente e
façam um esforço consciente para assegurar que o parceiro se sinta valorizado.
Ciúme
potencializa as emoções, fazendo o amor se sentir mais forte e o sexo mais
apaixonado. Em doses pequenas e manejáveis, ciúme pode ser um estímulo positivo
num relacionamento. Mas quando é intenso ou irracional, a história é bem
diferente.
O lado negativo: prejudica o amor
Às vezes
sentimentos de ciúme podem ficar desproporcionais. Por exemplo, quando um homem
provoca uma cena embaraçosa numa festa porque sua mulher aceita um convite para
dançar com um velho amigo ou quando uma mulher é tomada de ciúmes excessivos
pelo fato de o marido ter uma mulher como chefe no trabalho.
Este tipo de
reação pode afetar gravemente uma relação, levando o outro parceiro a sentir-se
constantemente pisando em ovos para evitar uma crise de ciúme. O parceiro ciumento,
muitas vezes ciente de seu problema, oscila entre sentimentos de culpa e
auto-justificação.
O ciúme está
intimamente relacionado à inveja. A diferença é que a inveja não envolve o sentimento de
perda presente no ciúme. Mas ambas são um misto de desconforto e raiva e
atormentam aquele que cobiça algo que outra pessoa tem. Quanto mais baixa for a
auto-estima, mais propensa está a pessoa de sofrer com um dos dois sentimentos.
Outra
diferença entre ambos reside no fato de o ciúme, quando ultrapassa certo
limite, se transforma em patologia, coisa que não acontece com a inveja.
Ciúme e
inveja desviam o foco de quem os sentem para os cuidados com a própria vida,
tão preocupado fica com a vida de outra pessoa. Por outro lado, se enfrentados,
podem levar a atitudes positivas como melhorar a aparência, desenvolver novas
habilidades e trabalhar a auto-estima.
Como regra,
a mulher é mais propensa que o homem a sentir ciúme ou inveja de
relacionamentos, enquanto o homem é mais frequentemente atormentado por
diferenças de status, renda e poder.
O ciúme
patológico é visto pela psiquiatria como uma espécie de paranóia
(distúrbio mental caracterizado por delírios de perseguição e pelo temor
imaginário de a pessoa estar sendo vítima de conspiração). Para o ciumento, a
fronteira entre imaginação, fantasia, crença e certeza se torna vaga e
imprecisa, as dúvidas podem se transformar em idéias supervalorizadas ou
delirantes.
Quem sente
ciúme a esse nível tem a compulsão de verificar constantemente as suas dúvidas,
a ponto de se dedicar exclusivamente a invadir a privacidade e tolher a
liberdade do parceiro: abre correspondências, bisbilhota o computador, ouve
telefonemas, examina bolsos, chega a seguir o parceiro ou contrata alguém para
fazê-lo. Toda essa tentativa de aliviar sentimentos, além de reconhecidamente
ridícula até pelo próprio ciumento, não ameniza o mal estar da dúvida, até o
intensifica.
A pessoa
ciumenta apresenta na sua personalidade um traço marcante de timidez e
sentimentos de insegurança, problemas que costumam ter raízes na infância .
Nesse caso, o tratamento passa por aplicação de técnicas de psicoterapia para
melhorar a confiança do paciente em si mesmo. O processo deve envolver sua família
pois o apoio no lar é imprescindivel nesses casos. Reduzido o sentimento de
insegurança, é esperado que diminua a aflição do ciúme. Só quem confia em si
mesmo pode confiar em outros, de modo que parece lógico começar o tratamento
pelo fortalecimento da autoconfiança.
Não menos
importante é atacar os sintomas físicos que o ciúme patológico provoca. O
desequilíbrio no sistema nervoso aumenta o nível de adrenalina, interfere na
dinâmica dos neurotransmissores e está na origem de muitas doenças psicossomáticas.
Por isso, é fundamental apurar as causas desses sintomas e gastar a energia
negativa em atividades como os exercícios físicos, meditação e trabalho que
traga gratificação.
Muitos pais
consideram que o ciúme, raiva ou inveja não são sentimentos nobres e que
não podem conviver com outros sentimentos assim considerados. Ciúme e amor, no entanto, não
se excluem, irmãos podem sentir ciúmes um do outro e ao mesmo tempo amarem-se.
Neste ponto, não diferem dos adultos.
Alguns pais
ficam receosos quando decidem ter o segundo filho, por não se considerarem
preparados para dividir a atenção entre eles. Outros temem causar qualquer tipo
de sofrimento ao primogênito. É comum os pais se reportarem a suas próprias
experiências infantis e lembrarem como se sentiram com relação aos irmãos e ao
afeto de seus pais.
Um
recém-nascido demanda uma atenção mais intensa e imediata e o que acaba
acontecendo é o primogênito sentir-se prejudicado por não ter mais a atenção
exclusiva dos pais.
Apesar de o
ciúme ser uma emoção humana, muitos proprietários de cães notam que seus
animais de estimação parecem exibir comportamentos aparentemente ciumentos.
Geralmente isso ocorre quando uma nova pessoa entra na casa do dono e passa um
longo período de tempo com ele. Exemplos clássicos são novos parceiros e a
chegada de um novo bebê. São intrusos, invasores do território familiar, que
tomam o tempo precioso e exclusivo que o cão passava com seu dono e, por
conseqüência, eles se sentem negligenciados. Bem parecido com o que sentem as
crianças humanas quando ganham um irmão.
O cão nessas
circunstâncias desenvolve comportamentos depressivos como recusa ao convívio
social, inatividade e perda de apetite e, no limite, agressividade.
O processo
que desencadeia essa reação no cão é instintivo, somente na aparência
parecendo-se com o sentimento do ciúme. O cão, por instinto, é cioso de seu
espaço, que logo delimita, comportamento repetido de seus ancestrais que viviam
na natureza. Quando o espaço é invadido por outro animal, a reação é, por
instinto, agressiva. É a mesma reação que ocorre quando cães de guarda atacam
quem invada o local guardado.
Mas quando o
animal pressente que o intruso é pessoa ligada a seu dono, se vê impedido, pelo
adestramento, a reagir de forma agressiva, e daí, forçado a contrariar seus
instintos, desenvolve atitudes ciumentas.
A
intensidade dramática do ciúme faz dele um tema atraente para escritores. Alguns
souberam tratá-lo com maestria e produziram obras primas. Citamos o exemplo
clássico de Otelo,
de William Shakespeare (1603) e de três
romances da língua portuguesa:Dom
Casmurro, de Machado de Assis (1899), Alves
& Cia., de Eça
de Queiroz (1925)
e São
Bernardo, deGraciliano Ramos (1934).
Como em
todas as tragédias,
desde sua origem na Grécia antiga, o destino trágico dos personagens centrais está
traçado desde o início. Prisioneiros de suas próprias limitações pessoais e
sociais, são arrastados para ele e não podem mudá-lo.
Otelo, o
general mouro de Veneza,
é prisioneiro da cor de sua pele. Por seus dotes militares, é tolerado, mas não
aceito pelos venezianos, que nutrem com relação a ele sentimentos racistas.
Otelo está ciente desse preconceito e se sente inseguro. Para dissimular sua
insegurança, comporta-se de modo grosseiro e impulsivo, a ponto de intimidar
sua própria mulher, Desdêmona.
A
insegurança de Otelo faz com que seja receptivo às intrigas de Iago, que
desperta seus ciúmes, insinuando um romance entre Desdêmona e Cássio. O ciúme
se intensifica ao longo da peça e culmina com o assassinato de Desdêmona pelo
marido. Uma acuada Desdêmona não pode também fugir a seu destino, como Otelo
não pode fugir do crime e de sua autodestruição.
O ciúme é um
tema fundamental na tragédia, pois além do ciúme de Otelo por Desdêmona, temos
o de Iago por Cássio , porque este tem um posto militar superior ao seu, e o de
Rodrigo, cúmplice de Iago, por Otelo, porque está apaixonado por Desdêmona.
É em Otelo
que se encontra a mais genial - e certamente a mais popular - definição de
ciúme: ciúme é um monstro de olhos verdes (a green-eyed monster).
Se Otelo
é o clássico mundial de obras literárias sobre o ciúme, no Brasil esta honra
cabe a Dom Casmurro, de Machado
de Assis. Até hoje é motivo de aceso debate se Capitu traiu ou não
o marido com seu melhor amigo, Escobar. A questão, no fundo, é irrelevante,
pois para entendermos o perfil psicológico de Bentinho, basta sabermos que ele
acredita ter havido adultério.
Também é
irrelevante se o fato que desencadeou o ciúme - a forma intensa com que Capitu
fitava Escobar no velório deste, perturbando Bentinho a ponto de impedi-lo de
pronunciar o discurso fúnebre – ocorreu na realidade ou apenas existiu na
imaginação do personagem.
No despertar
do ciúme, teve papel certamente preponderante o sentimento de culpa que
carregava Bentinho por não cumprir a promessa de sua mãe, de tornar-se padre e
daí o ressentimento inconsciente contra Escobar, que o ajudara a dissuadir a
mãe de seu intento, permitindo seu casamento com Capitu.
A culpa e o
ressentimento eram tão fortes que Bentinho esteve a ponto de suicidar-se. Não o
fez e depois de ter perdido a mulher e humilhado a ela e ao filho, se tornou o
Dom Casmurro do título.
Pode-se
dizer que o romance de Eça é sobre o anticiúme. Godofredo Alves,
voltando mais cedo que o costume para casa, flagra a mulher Ludovina,
abandonada, sobre o ombro de um homem, que lhe passava o braço pela cintura,
e constata, petrificado, que se trata de seu sócio, Machado.
Após ofender
e expulsar de casa a mulher, começa a sofrer as dores do ciúme, mas, já nas
primeiras páginas Eça deixa claro que o desejo de sofrer de Alves não vai
longe: Então imediatamente resolveu resistir àquele estado de perturbação e
inquietação./ Quis que no seu espírito reinasse a ordem; que tudo na casa
retomasse o seu ar regular e calmo.
Naquele momento,
ainda não manifestava Alves a intenção de reconciliar-se com Ludovina, mas aos
poucos esta intenção vai se formando no seu espírito e, ao final, do romance já
estão os três juntos, o casal e o amigo Machado, brindando seu sucesso na vida
e nos negócios.
Há no
romance de Eça uma crítica sutil ao capitalismo
e o apego da burguesia a coisas materiais . A separação de Alves era ruim para os
negócios da firma: seria mal visto na praça e perderia a colaboração de um
sócio eficiente. À violência do ciúme segue-se a frieza do cálculo financeiro,
a ponto de Alves duvidar até mesmo que tenha visto Ludovina em atitude
comprometedora.
O Coronel
Paulo Honório considera as mulheres bichos difíceis de governar, mas
quer casar para ter um herdeiro. Decide que a mulher ideal seria a filha do
juiz, mas indo a casa dela para pedir sua mão ao pai, encontra uma outra moça,
Madalena, que lhe parece mais interessante e acaba por casar-se com ela.
Professora
culta e politizada, Madalena desperta desconfianças do marido, por suas
opiniões e por sua atitude generosa para com os explorados empregados de suas
terras. Acha que ela é comunista e comunista, sem religião, é capaz de tudo.
Passa a duvidar da honestidade da mulher. Atormenta-a de tal maneira, que
Madalena comete suicídio. A vida de Paulo Honório se transforma num imenso
vazio. Chega à velhice solitário, perseguido pela imagem de Madalena.
Paulo
Honório era dono de terras, de gado e da vontade dos homens. Casou com
Madalena, não para ter uma companheira pela vida, mas com a atitude calculada
de quem está acrescentando mais um item a seu patrimônio. Este novo item tinha
um único propósito: dar-lhe um filho.
Mas Madalena
tinha idéias e vontades próprias, não lhe pertencia porque não se submetia.
Madalena era o outro que nunca teve que enfrentar e o atemorizava.
Precisava
então destruí-la, pois estava em descompasso com o mundo que conhecia até
então. Mas só poderia destruí-la se elaborasse em sua mente que Madalena não
prestava, daí a pecha de comunista , mais uma crítica de Graciliano aos
preconceitos da época, e de adúltera.
Quando
Madalena se suicida, um gesto autônomo de vontade que não esperava, dá-se conta
do que havia feito e, no fim do romance, solitário, conclui: Sou um
aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos
nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.
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