PURGATÓRIO E ORAÇÃO PELOS DEFUNTOS (John O’ Brien)
Porque rezar pelos
defuntos?
Porque rezam os católicos pelos mortos? É uma pergunta
que fazem muitas vezes os não católicos. Como o costume de rezar pelos defuntos
se baseia na crença no Purgatório, suprimida pelos reformadores do séc XVI e é
praticamente desconhecido pelos seus discípulos actuais, estes têm naturalmente
dificuldade em saber como devem compreender o costume católico de rezar pelos
irmãos defuntos. A Igreja mostra aos seus filhos este exercício de piedade,
permitindo a todos os sacerdotes que celebrem três missas pelos defuntos em 2
de Novembro. E também consagra o mês de Novembro inteiro a orações especiais
pelas almas do Purgatório.
Convidamos os nossos leitores não católicos a examinarem
connosco como esses exercícios de piedade pelos defuntos se fundamentam na
Sagrada Escritura, na Tradição e na razão.
Purgatório e oração pelos mortos
A Sagrada Escritura convida-nos, durante a nossa vida, a
recorrermos à intercessão dos santos e dos anjos e a orarmos uns pelos outros,
não só pelos vivos, mas também pelas almas dos nossos irmãos defuntos.
Conta o segundo Livro de Macabeus que Judas, vencedor de
Górgias, com os seus companheiros, enterrou os judeus caídos em combate e fez,
entre todos os seus homens, uma colecta que rendeu 2000 dracmas de prata.
Enviou esta soma para Jerusalém para oferecer um sacrifício pelos pecados
deles. Não considerava graves os pecados deles porque, diz o texto, “ele
pensava que, àqueles que tinham adormecido piedosamente, estava reservada a
mais bela recompensa”. O autor sagrado tira o ensinamento contido nesta
atitude: “Santo e piedoso pensamento! Ele ofereceu esse sacrifício expiatório
pelos que haviam morrido; a fim de que fossem absolvidos do seu pecado” (2Mc
12, 43-46).
Embora os nossos irmãos separados não considerem como
inspirados os livros dos Macabeus, devem pelo menos admitir que são documentos
históricos autênticos que atestam a fé dos judeus dois séculos antes de Jesus
Cristo. Com efeito, assentam na mesma autoridade que Isaías, S. João e os
outros livros sagrados: o ensinamento infalível da Igreja que declara
inspirados os livros da Bíblia.
O nosso Salvador fala do perdão dos pecados «no mundo que há-de vir» (Mt 12, 32).
Segundo Santo Agostinho e S. Gregório o grande, esta passagem refere-se ao
Purgatório.
Na epístola aos coríntios, S. Paulo escreve: “... a obra de cada um será
posta
Por estas palavras S. Paulo diz-nos que a alma deste
homem será no fim salva, embora tenha de sujeitar-se, por algum tempo, às
chamas do fogo purificador (purgatório).
É esta a exegese unânime dos primeiros Padres da Igreja;
é esta a tradição constante de séculos, que nos fala dos túmulos dos mártires e
das catacumbas onde estão sepultados os corpos dos primeiros cristãos. O
autor viu, nas catacumbas de S. Calisto, às portas de Roma, muitas inscrições
que eram um eco das últimas palavras dos cristãos moribundos: “Nas vossas
orações pensai em nós que vos precedemos”; “Que a luz eterna brilhe sobre ti em
Cristo”, era a resposta — e a oração — dos sobreviventes. Encontramos também estas inscrições
nos monumentos funerários de numerosos cristãos dos três primeiros séculos.
Citam-se frequentemente os Padres da Igreja do Oriente e
do Ocidente a propósito do costume de orar pelos defuntos. Tertuliano (+ 160,
+240) fala em duas passagens diferentes, das missas de aniversário: “Nós
oferecemos todos os anos, em dia determinado, o sacrifício pelos mortos como
pelo dia do seu nascimento” e “A viúva crente reza pela alma do seu esposo,
reza por ele que está no repouso esperando, para que tenha parte na primeira
ressurreição, e oferece por ele as suas orações no aniversário da sua morte”.
Na sua oração fúnebre pelo imperador Teodósio, S.
Ambrósio, bispo de Milão, diz: “Dá ao Teu servo Teodósio o repouso perfeito,
esse repouso que Tu preparaste para os santos... Eu amei-o; por isso quero
segui-lo na terra dos vivos. Não o abandonarei até que o chame na santa
montanha de Deus”.
Um dos relatos mais tocantes que nos foram transmitidos
sobre este assunto nos escritos dos Padres da Igreja, vem-nos de S. Agostinho,
no princípio do séc V. O sábio bispo conta que sua mãe, chegada a hora da
morte, lhe fez este último pedido: «Sepulta
o meu corpo em qualquer lugar, não importa onde; não te preocupes com ele. Mas
peço-te somente que, onde quer que estejas, te lembres de mim no altar do
Senhor». A lembrança deste pedido inspirou ao filho esta ardente prece: «Por isso Te imploro, ó Deus do meu coração,
pelos pecados da minha mãe. Que ela repouse em paz com o seu marido... E
inspira, Senhor, aos teus servos meus irmãos, que eu sirvo pela palavra, pelo
coração e pela escrita, a todos os que lerem estas linhas, que lembrem no Teu
altar, a Tua serva Mónica». Encontramos aqui o eco do uso geral na Igreja
primitiva, de rezar pelos defuntos e da crença num estado chamado purgatório
(fogo purificador).
O hábito de oferecer orações e sacrifícios pela alma dos
parentes defuntos estava já profundamente enraizado no antigo judaísmo.
Conservou-se até aos nossos dias apesar das migrações e da dispersão por todo o
mundo. Há alguns anos, o autor viu um grande número de judeus rezar pelos seus
defuntos em Jerusalém, no muro das lamentações.
Um livro de orações, de uso generalizado entre os judeus
da América, contem a seguinte fórmula de oração para as cerimónias fúnebres: «Irmão desaparecido, possas tu encontrar as
portas do céu abertas e ver a cidade da paz e o lugar de delícias da segurança;
que os anjos venham apressadamente ao teu encontro para te servir; que o Sumo
Sacerdote se apreste a acolher-te. Vai até ao fim; repousa em paz e ressuscita
para a vida. Que a estadia no lugar de delícias do céu seja o quinhão, a morada
e o lugar de repouso da alma do nosso irmão defunto; que o Espírito do Senhor
o conduza ao paraíso, a este irmão que saiu deste mundo por vontade de Deus,
Senhor do céu e da terra. Que o grande Rei dos Reis, na Sua misericórdia
infinita, o esconda à sombra das suas asas. Que o desperte no fim dos seus dias
e o sacie na torrente das Suas delícias»..
De facto, nota o padre B. L. Conway, é singular que os
reformistas tenham afastado tão unanimemente, uma tal quantidade de
testemunhos sobre o Purgatório e a intercessão pelos mortos, contida na
Sagrada Escritura e na Tradição. Mas, no Evangelho de Cristo os ensinamentos
estão tão ligados uns aos outros que a negação de um dogma fundamental acarreta
logicamente a de muitos outros. A opinião errónea de Lutero a respeito da
justificação pela fé, levou-o a negar a diferença entre pecado mortal e pecado
venial (quanto aos castigos temporais), a necessidade de boas obras, a eficácia
das indulgências e a utilidade da oração pelos mortos. Se os pecados são, não
perdoados, mas simplesmente “cobertos”; se o “homem novo” do Evangelho é o
Cristo que imputa a Sua justiça ao homem pecador, seria de facto insensato
“rezar pelos mortos para que sejam libertados dos seus pecados”. A negação do
Purgatório por Lutero tem como consequência, ou a doutrina que ensina que a
maior parte dos cristãos piedosos são condenados (o que até certo ponto explica
a negação moderna da eternidade das penas), ou a suposição que garante que
Deus, no momento da morte, purifica a alma por uma súbita mudança mágica.
Embora a palavra “purgatório” não se encontre na Sagrada
Escritura, o Antigo e o Novo Testamento, como os escritos dos Padres da Igreja
do Oriente e do Ocidente, fazem alusão à realidade que ele designa
simbolicamente, uma vez que a crença na eficácia da oração pelos mortos não
teria nem sentido, nem significado se o Purgatório não existisse.
A razão exige o Purgatório
À falta de provas que nos dão a Sagrada Escritura e a
Tradição, a razão faria por si só supor a existência de um estado intermediário
entre o céu e o inferno; até a exigiria. Do facto de “nada sujo poder entrar no
céu”, resulta que uma alma que sai desta vida com um pecado venial, ou uma
pena não expiada, não poderia entrar no céu. Também não poderia, em justiça,
ser enviada para um inferno que dura para sempre, porque não haveria nenhuma
proporção entre uma tal punição e a falta cometida.
É provável que um número muito grande de seres humanos
morram com faltas veniais. Eles não são dignos de entrar imediatamente no céu,
mas não podem também, em justiça, ser condenados ao inferno. Deve portanto
haver um outro estado em que a pena é proporcional à falta. É o que reclama a
simples razão. Esse estado, que a própria razão exige, é o Purgatório onde as
almas são purificadas das suas imperfeições e assim preparadas para aceder à
sublime presença do seu Criador e Senhor, à felicidade inexprimível do céu.
Não só o hábito de rezar pelos defuntos está em harmonia
com a Sagrada Escritura, mas também o nosso instinto natural nos impele a isso.
A doutrina da comunhão dos santos sublinha a solidariedade social e espiritual
do género humano, ensinando-nos claramente de que maneira podemos ajudar-nos
uns aos outros nas nossas necessidades. Ela contribui muito para tirar à morte
o seu carácter aterrador.
Negando esta doutrina, os reformadores do séc. XVI, não
só violaram a Sagrada Escritura e a uma tradição ininterrupta de quinze séculos
na Igreja Cristã, mas também violentaram e perturbaram o nosso instinto natural
e os desejos do nosso coração. Cortaram as ternas ligações que unem a terra com
o céu, a alma na carne com a alma liberta do seu invólucro terrestre.
Se posso rezar pelo meu irmão enquanto está na terra, porque não posso
rezar por ele quando franqueou o limiar da eternidade? Ao destruir o corpo, a
morte não deixa a alma intacta? Esta alma não continua, portanto, a viver, a
pensar, a recordar, a amar? Porque motivo terrestre não deveria eu pensar no
meu irmão e continuar a provar-lhe o meu amor, não por lágrimas inúteis, mas
pelo meio muito eficaz da minha oração por ele? Onde encontraríamos um cristão
que pudesse ficar de pé, junto da tumba aberta a que vê descer o cadáver de um
ser amado ao lugar do seu último repouso, sem levantar ao céu os olhos
vermelhos de lágrimas e fazer esta oração: “Ó Deus, tem piedade da alma do meu
querido defunto”.
Apesar do silêncio da sua religião acerca da eficácia das orações pelos
mortos, o protestante presta atenção à voz do seu coração e à da linguagem
universal do amor e da simpatia que todos os homens entendem. Dos lábios mudos
do seu amigo defunto, ouviu esta mesma súplica que Job, na sua infelicidade,
dirigia aos amigos: “Tende piedade de mim, tende piedade de mim, ao menos vós
que sois meus amigos, porque a mão do Senhor me feriu”. O facto de nenhum
ouvido ficar surdo a um tal pedido é a prova de que o coração humano não deixou
que o preconceito religioso lhe arrancasse o amor e a simpatia. Das almas que
passaram o limiar da morte, entraram na eternidade, e do Purgatório nos pedem
que as lembremos nas nossas orações, nós podemos dizer com toda a verdade: “Já
não podemos tocá-las com as nossas mãos, os nossos olhos não poderia vê-las,
mas, graças a Deus, o nosso amor e as nossas orações podem sempre alcançá-las”.
Após cerca de 50 anos de experiência no ministério
pastoral, o cardeal Gibbons conta um facto que nos esclarece sobre este ponto:
“Vi uma jovem atarefar-se, cheia de bondade, à volta de um pai doente,
ternamente amado. Durante longos dias cheios de angústia e noites sem sono, ela
velou junto do leito do doente, humedecendo-lhe os lábios secos,
refrescando-lhe a testa ardente, ajeitando-lhe na almofada a cabeça que
descaía. Toda a melhora e agravamento do estado do doente eram para o seu
coração um raio de sol ou uma sombria nuvem de tristeza. O amor filial era o
grande impulsionador de toda a sua actividade. O pai morreu; ela acompanhou ao
cemitério o seu despojo mortal. Não era católica; mas enquanto ali estava de pé
junto do caixão, rompendo as cadeias com que um cruel preconceito religioso
tinha fechado o seu coração, ela elevou-se acima da sua seita e gritou:
“Senhor, tem piedade da sua alma!” Era a voz da natureza e da religião.
Um ensinamento que nos convém
Não há nenhum sistema religioso da antiguidade onde não
se encontre algo de semelhante (ao Purgatório). Estava reservada aos
reformadores do séc XVI a rejeição deste antigo dogma da Igreja. Quando eles
negaram a santidade da missa e de numerosos outros caracteres sacramentais do
catolicismo, desapareceu também a doutrina do Purgatório. Se as almas dos
mortos passam imediata e eternamente, a um estado sem mudança que não está ao
alcance da nossa intercessão, todas as nossas relíquias, as nossas orações,
todas as nossas outras práticas análogas são vãs. Mas se cremos na comunhão dos
santos, quer dizer, na união entre a tripla Igreja: militante desta terra,
sofredora do Purgatório e triunfante do Céu, então podemos ter influência
sobre as almas que já franquearam o limiar e elas podem tê-la sobre nós.
São muito raros os que deixam esta vida num perfeito
estado de graça que lhes assegure a entrada imediata no céu. E esperamos que
mais raras ainda sejam aquelas a quem o bendito refúgio do Purgatório está
vedado. Não consigo imaginar como os protestantes podem acreditar naquilo. Não
é de espantar que a negação do Purgatório tenha tido como consequência, para
muitos, deixarem de acreditar no inferno. Esta doutrina é portanto, em si
mesma, monstruosa.
Todos os dogmas católicos são dependentes uns dos outros:
aguentam ou caiem todos juntos. Não se pode retirar uma pedra a uma abóbada,
sem que ela desmorone. O Purgatório é uma das ideias mais humanas e mais belas
que se possam conceber. Quantos corações aflitos de mães ela acalmou e
consolou, dando-lhes esperança para um filho desencaminhado!”
A doutrina católica sobre o Purgatório agrada as
exigências da razão. A doutrina da Igreja católica sobre o Purgatório, ensina
que há um lugar em que as almas sofrem durante um certo tempo, antes de serem
admitidas às alegrias do céu, porque devem purificar-se de certos pecados
veniais, fraquezas e faltas ou porque têm ainda de expiar, pelos pecados
mortais, penas temporais que ainda não expiaram, embora a pena eterna lhes
tenha sido perdoada pela expiação de Cristo. De resto, a Igreja declara que
pelas nossas orações e pelo santo sacrifício da missa, podemos sempre, graças
aos méritos de Jesus Cristo, ajudar estas almas. Neste ponto pára o dogma
definido pela Igreja. Não é artigo de fé que haja um fogo material no
Purgatório.
Crê-se, geralmente, que as almas sofrem aí tormentos
espirituais porque sentem, com uma intensidade que nunca teria podido existir
na terra, de que perfeita felicidade estão excluídas por algum tempo, ao mesmo
tempo que têm de reconhecer a monstruosidade dos pecados que cometeram contra
o Pai Celeste e seu Salvador”. -
Encontrei muitos protestantes que, embora a doutrina do
Purgatório não exista na fé que professam, confessam que pensam muitas vezes
nos seus queridos defuntos quando oram. Lembro-me de uma protestante piedosa
que dizia que rezava todos os dias pelo filho, morto num acidente de viação
alguns dias depois de terminar os seus estudos universitários. Embora ela
nunca tenha lido uma única linha de Santo Agostinho, pelo desejo irresistível
do seu coração e por um instinto enraizado da sua natureza humana, conhecia o
ensinamento dele dizendo que “muitos daqueles que deixaram esta vida não são
nem bastante maus para serem indignos de misericórdia, nem suficientemente
bons para terem imediatamente direito à bem-aventurança”.
Em número crescente, os irmãos separados reconhecem
quanto é razoável e autêntica a doutrina do purgatório, à luz do ensinamento de
Cristo e dos Seus apóstolos
Reconhece-se facilmente que é a única doutrina que
concilia, pelo menos até certo ponto, a fé numa recompensa futura e numa
punição futura com a nossa maneira de ver acerca do que é bom e razoável. Longe
de ser uma superstição supérflua, vê-se que é uma exigência da razão e da
moral; e uma fé no Purgatório não é apenas uma afirmação da razão, mas uma
parte harmoniosa de todo o ideal moral”.
A doutrina do Purgatório responde às exigências da razão;
está em harmonia com os desejos instintivos da nossa natureza; transmite-nos o
ensinamento de Cristo e Seus apóstolos.
“A obra de cada um será posta